Corpos Reais e
Marionetes do Consumo
Em suspeição diante do espelho,
observando se o reflexo é real.
Neste
período de ressaca carnavalesca, a vida cotidiana das pessoas segue seu curso
rotineiro, máscaras e fantasias caem na ardente realidade que se move contra
todos os desejos contemplativos de uma sociedade rotacionada pela “idiotia
compulsiva” dos indivíduos em seus desejos utilitaristas. A busca da fonte da
felicidade duradoura se confronta com uma lógica mundana nada animadora. Os
desvarios das pessoas na sanha instintiva para encontrar a satisfação de suas
necessidades, é uma consequência da “miríade” de carências que condiciona o
inabitável mundo de nossos sonhos.
Em
recente relatório sobre o desempenho da
economia brasileira (Ministério da Fazendo, Dez/2012), os setores que alavancarão o mercado
consumidor interno são respectivamente ,
o setor de perfume e fragrâncias (em primeiro lugar), e, produtos para animais de estimação (em
terceiro lugar), na sequência , automóveis, bebidas e vestuário. Se avançarmos
na leitura mercantil, o que pensar de um
país-mercado, onde a lista dos livros
mais vendidos , é uma tonalidade asfixiante de autoajuda, erotismo rastaquera
infantilizado, e, finalmente, fórmulas mágicas para enriquecer, ser
feliz, etc,. Em síntese, como diria Lipovestky(2007), a nova sociedade que nasce funciona por
hiperconsumo, determinando o surgimento do “homo consumericus”, movido pelas
marcas, embalagens e publicidade.
No
enredo da alienação desenfreada, a vida se transforma em entretenimento , na
duradoura “celebrityland”, espaço
de propulsão do desejoso prazer
em comprar, a compulsão para o consumo,
epidêmica doença que deve ser tratada individualmente, encontrará suas
terapias alopáticas ou homeopáticas,
tudo dependerá do nível de submissão a ´perversa´ lógica do sistema. . O hiperconsumo se legitima pela supressão dos
seres reais, as caricatas pessoas que
mimetizam por emulação, os padrões honoríficos de seus astros, de suas
estrelas, no luxuriante espetáculo para a
felicidade consumista.
No
ludismo erotizado do hiperconsumo, o
edificante mundo da aquisição se transforma “no esbanjamento organizado pela
criação destrutiva”. Na profusão
sedutora e irrefreável por mais objetos e prazeres, vivemos a eterna liquidação de nossas vidas, em produtos que são “obsolescentes” já em seu nascimento. Nesta corrida de ganhadores que sobem cada degrau , sussurrando “...as diferenças não são capazes
de separar”, todos são marionetes do consumo , razão de viver de uma massa que
age por “irracionalidade de manada”, exaltando seus gozos particulares em rede,
seus sonhos, seus lazeres, signo de um dilúvio de frivolidades oscilantes
na velocidade de nanosegundos.
Como
tudo é intercambiável, resolvi adotar por um momento minha “idiotia
compulsiva”, quebrei o espelho,
dispersei todas as fragrâncias para aromatizar o ambiente, entoei um mantra “tudo posso, tudo
quero, eu consigo...”, resolvi ir ao supermercado comprar ração da adorável
“Olga” - companheira fiel, e, finalmente, coloquei na porta de minha
residência uma placa com a singela
expressão : “Aqui mora um cão feliz e
sua família....”
